Do narcisismo ao espelho, e do espelho à escuta
Do conceito freudiano-lacaniano à escuta e à intervenção na clínica contemporânea
Ficha técnica
Apresentação
Público
Proposta do Curso
Conteúdo Programático
Ficha técnica
Formato: Seis encontros de duas horas, ao vivo pelo Zoom, com gravação disponível aos alunos por doze meses.
Datas propostas: (quartas-feiras). 05/08, 12/08, 19/08, 26/08, 02/09 e 09/09 de 2026.
Horário: 19h às 21h.
Investimento: R$ 250,00 ou 2x de R$ 140,00.
Inscrição e pagamento: Hotmart
Apresentação
Narcisismo e estádio do espelho costumam ser ensinados como blocos de teoria que se estudam antes de chegar à clínica. Essa arrumação engana. Os dois conceitos não estão antes da clínica, eles são a gramática mesma da escuta. Quem os apropria bem não fica sabendo mais coisas sobre o eu, passa a ouvir de outro lugar.
Este curso percorre o caminho que o próprio nome anuncia. Parte do narcisismo freudiano de 1914 e do estádio do espelho lacaniano de 1949, mostra por que esses conceitos fazem do eu uma imagem, uma defesa e uma resistência, e leva essa tese até suas consequências concretas na escuta e na intervenção. No meio do percurso a clínica contemporânea entra com força, porque é justamente diante das patologias do nosso tempo, as clínicas do vazio, os sintomas mudos, as apresentações que já não se endereçam ao Outro, que a boa apropriação desses conceitos mais faz diferença. Para não cair na alternativa pobre entre neurose e psicose diante dessas apresentações, o curso convoca a clínica dos fracassos da fantasia de Silvia Amigo, que fornece um terceiro registro de leitura e, mais que isso, uma teoria do imaginário como algo a construir, e não apenas a reduzir. O curso trabalha com casos fictícios, neurose e não-neurose, e fecha na pergunta que orienta toda a prática, a de quando furar e quando sustentar a imagem.
Público
Psicólogos, psicanalistas, analistas em formação, estudantes de psicologia em orientação analítica e profissionais da saúde mental interessados na clínica lacaniana e nas patologias do contemporâneo. Não é um curso introdutório de divulgação, e sim um percurso clínico voltado a quem escuta ou vai escutar.
Proposta do Curso
A articulação Freud-Lacan sobre narcisismo e espelho tomada não como erudição, e sim como bússola de escuta. Critérios para pensar a clínica contemporânea sem reduzir tudo à neurose. Uma leitura do sintoma atual que distingue o que se endereça ao Outro do que se fechou em curto-circuito com o objeto. E, sobretudo, um princípio de manejo diferencial da intervenção, porque saber se o eu diante de você é uma armadura a afrouxar ou uma armadura a sustentar é o que decide se a sua intervenção alivia ou precipita.
Conteúdo Programático
Encontro 1, 05/08: O narcisismo em Freud, ou o eu que não estava lá
Ponto de partida no texto de 1914, onde Freud descobre que o eu não está dado desde o início e que ao autoerotismo disperso precisa somar-se uma nova ação psíquica para que o narcisismo se constitua. Trabalhamos o narcisismo primário e o secundário sem os reduzir a fases simples, a economia libidinal entre eu e objeto, e a introdução do ideal do eu como herdeiro do narcisismo perdido da infância. Fica estabelecida a tese que atravessa o curso inteiro, o eu é uma formação, não um fundamento, e amar-se é sempre amar-se a partir de um ponto que não coincide comigo.
Encontro 2, 12/08. O estádio do espelho, ou a imagem que promete um corpo
Lacan instala em 1949 a resposta à ação psíquica que faltava em Freud. Percorremos a cena do espelho, a prematuração e o corpo despedaçado, a assunção jubilatória da imagem, o desconhecimento estrutural que nasce com o eu, e o gesto decisivo em que a criança se volta para o Outro em busca de ratificação. Chegamos à distinção que orienta toda a clínica que vem depois, a do eu ideal, imagem imaginária com que me identifico, e a do ideal do eu, ponto simbólico no Outro a partir do qual essa imagem recebe seu valor. Introdução ao esquema óptico e ao esquema L, e à agressividade como avesso do narcisismo. Deixamos plantada, para os encontros clínicos, uma pista do último ensino, a de que o imaginário não se reduz ao especular, ideia que Silvia Amigo levará às últimas consequências e que reabilita o imaginário como algo a construir.
Encontro 3, 19/08: Da estrutura ao contemporâneo, com casos fictícios
A passagem da teoria à clínica. Apresentamos o diagnóstico da época, o discurso capitalista, a evaporação do pai e a forclusão da falta, com apoio na leitura de Recalcati sobre o homem sem inconsciente e a clínica do vazio. Discutimos o deslocamento do sintoma que se cifra e se endereça ao Outro para o sintoma mudo, do ato, que dispensa o Outro. É aqui que entra Silvia Amigo, com a clínica dos fracassos da fantasia. Ela mostra que há sujeitos não psicóticos, com o Nome-do-Pai inscrito, que ainda assim não terminam de constituir a fantasia fundamental, e não por crise passageira, e sim por estrutura. Amigo nomeia esses casos fracassos estáveis da fantasia e os distingue da neurose em crise, aquela do tipo Hamlet, em que a fantasia vacila mas está constituída. Ganhamos com isso um terceiro registro de leitura, para além da alternativa entre neurose e psicose, que é o que boa parte das apresentações contemporâneas exige. Vale registrar ainda a tese dela, cara à nossa clínica, de que as anorexias e bulimias "veras" não pertencem às histerias e de que os transtornos alimentares atravessam as estruturas, uma anorexia podendo até sustentar uma psicose. A partir daí, apresentação e discussão de casos fictícios que contrastam neurose, não-neurose e fracasso da fantasia, para exercitar a leitura estrutural sem o apressamento do rótulo.
Encontro 4, 26/08: A escuta clínica, atenção flutuante do imaginário ao simbólico
O coração técnico do curso. Retomamos a atenção flutuante freudiana e a relemos com o par imaginário e simbólico. Trabalhamos por que não se faz aliança com o eu, por que fortalecer o eu é fortalecer a resistência, e como escutar a méconnaissance como estrutura e não como erro a corrigir. Discutimos a desconfiança da coerência e a aposta na fenda, o eixo imaginário da transferência e o risco da captura especular, e o manejo do ideal, isto é, saber de onde o sujeito se faz amar e olhar, e não se prestar ao jogo dual.
Encontro 5, 02/09: A clínica do real, o que não passa pelo Outro
O corpo e o gozo. Distinguimos os três corpos, o imaginário da imagem, o simbólico do corpo falado e o real do gozo, e separamos a imagem i(a) do olhar como objeto a. Trabalhamos os sintomas que não se endereçam ao Outro, a toxicomania, o sintoma alimentar, a automutilação, o pânico, e o corpo que não se sustenta pela imagem e precisa de próteses e âncoras. Retomamos aqui os fracassos da fantasia, porque a fantasia fundamental funciona como o quadro que vela e regula o real, e quando ela não se constitui o sujeito fica exposto ao real sem esse anteparo, o que dá a angústia sem borda, a passagem ao ato e o corpo entregue ao gozo sem cena. Introdução às suplências e às invenções do sujeito. Casos fictícios do lado do real.
Encontro 6, 09/09: A intervenção clínica, furar ou sustentar
O fecho, e a virada técnica que reorganiza a prática. Na neurose, a direção clássica se mantém, furar a imagem, dessupor o eu, deslocar o ideal, e aí o corte e o equívoco são terapêuticos. Nas clínicas do vazio, na psicose ordinária e nos fracassos da fantasia, a mesma manobra pode precipitar a fragmentação, e a orientação se inverte, trata-se de ajudar a construir e sustentar uma borda, de fazer semblante de um Outro que não persegue, de acompanhar suplências sem apressá-las. É aqui que a contribuição de Amigo dá o fundamento teórico do curso inteiro. Se o imaginário não se reduz ao especular e, uma vez construído, é peça essencial para o funcionamento da estrutura, então diante de um fracasso da fantasia não se trata de modificar o enquadre, e sim de sustentar uma criação, uma construção do imaginário que torne a análise possível. Fica o princípio, o diagnóstico estrutural não é rótulo, é bússola que decide se a intervenção alivia ou desampara. Encerramento com articulação à prática dos participantes.
Bibliografia geral
Fundamentos. Freud, Introdução ao narcisismo (1914), Luto e melancolia (1917), Psicologia das massas e análise do eu (1921). Lacan, O estádio do espelho, A agressividade em psicanálise, Função e campo da fala e da linguagem, A direção do tratamento e os princípios de seu poder, Observação sobre o relatório de Daniel Lagache, todos nos Escritos, e os Seminários 1, 10 e 11.
Clínica do contemporâneo. Amigo, Clínica de los fracasos del fantasma (Homo Sapiens, Rosario, 1ª ed. 1999) e Paradojas clínicas de la vida y la muerte (Homo Sapiens, 2003). Recalcati, L'uomo senza inconscio (2010), Clinica del vuoto e L'ultima cena: anoressia e bulimia (1997). Cosenza, Il muro dell'anoressia mentale (2008). Miller e outros sobre a psicose ordinária.
Diagnóstico do laço, releitura em chave lacaniana. Han, Bauman, Lipovetsky e Lasch, tomados como sintomatologia do laço e não como teoria clínica.