A Relação Sexual não existe: Neymar, Haaland e o que o desejo brasileiro foi fazer no Instagram de uma norueguesa.
- Fabiana Louro
- 10 de jul.
- 10 min de leitura

"Amar é dar o que não se tem a quem não o quer."
Jacques Lacan
Nossa cena aconteceu em 5 de julho de 2026, quando a Noruega eliminou o Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo. Dois a um, com os dois gols de Erling Haaland. Neymar deixou o gramado aos 34 anos dizendo que agora acabou, que começou ali e fechou ali. Foi talvez a frase mais curta e mais analisável de toda a sua carreira.
E então veio a parte que me interessa. O Brasil, esse país que já quebrou orelhão por menos, fez algo inédito na história das nossas eliminações. Em vez de odiar o algoz, foi ao perfil da companheira dele se declarar. Uma torcedora escreveu no Instagram de Isabel Haugseng Johansen que até tentou ficar brava, mas que os dois eram adoráveis demais. Nenhum boneco queimado. Nenhuma ameaça. O luto nacional durou menos que um story.
Devo confessar que passei uma boa hora lendo aqueles comentários. Deformação profissional, eu sei; onde todo mundo vê zoeira de internet, eu vi material clínico pulsante. E o material dizia algo curioso. Os homens da bolha que chegava até mim seguiam ocupados em defender Neymar de qualquer crítica, com a dedicação de quem defende a própria honra. As mulheres suspiravam por um norueguês de dois metros que namora a amiga de infância e sonha com um futuro dirigindo trator. Fiquei com essa cena na cabeça por dias, do jeito que ficam aquelas coisas que ainda não entendemos, mas já amamos.
Eles querem ser e elas querem ter?!
Freud formalizou essa diferença em 1921 [1], sem precisar assistir a um pênalti. O fato é que existe uma distância estrutural entre querer ser alguém e querer ter alguém. Na identificação, o ídolo ocupa o lugar daquilo que eu gostaria de ser. Na escolha amorosa, ele ocupa o lugar daquilo que eu gostaria de ter. Parece detalhe de manual, mas esse diminuto verbo separa duas multidões inteiras.
Observem os fãs de Neymar. Não é o jogador que eles defendem há mais de quinze anos com uma virulência que nenhum contrato publicitário explica; é a própria fantasia. Neymar funciona como a imagem de uma vida sem limite e sem fatura. Todas as mulheres, todo o dinheiro, quatro filhos com três mulheres, pôquer às terças e, ainda assim, o amor incondicional da mídia e a promessa eternamente renovada de que o melhor está por vir. Criticar Neymar, para esse fã, é rasgar o pôster que ele colou no próprio espelho.
O psiquiatra Carl G. Jung tinha um nome para essa figura. O puer aeternus [2], o menino eterno, o prodígio da vida provisória, aquele que não realiza a promessa porque realizá-la exigiria envelhecer. A carreira aquém do prometido não é um acidente da minha tese, é simplesmente a própria tese.
E, do outro lado, temos essas mulheres que descobriram na Copa um centroavante que cozinha com a companheira, joga videogame com ela, trata gandulas e crianças com uma educação quase constrangedora e declara, com a cara mais séria e o sorriso mais genuíno do mundo, que seu sonho de aposentadoria é uma pequena fazenda em Bryne [3], rodeado de animais. Foi o tio dele, que plantava batatas, quem lhe ensinou a dirigir trator, e talvez seja ele o responsável pela arquitetura imaginária desse futuro desejado.
De qualquer forma, o que temos aqui é que nenhuma dessas mulheres quer ser Haaland. Elas querem ter um. Ama-se ali o que protege, nutre e permanece.
E aqui convocamos Lacan com a frase mais mal citada da psicanálise, a de que não há relação sexual. Calma, ele não estava negando o óbvio; sabemos que as pessoas fazem sexo. Mas o termo usado por Lacan é rapport [4], que, em francês, quer dizer proporção, razão matemática. O que Lacan diz é que não existe fórmula capaz de escrever o encaixe entre um homem e uma mulher, como existe para a chave e a fechadura, para os animais e seu instinto. Ninguém nasce sabendo ser parceiro de alguém, pois isso não está escrito em lugar nenhum, ainda que muita gente acredite carregar uma espécie de manual de conduta universal e o propague entre familiares, grupos sociais e comunidades religiosas.
E o que temos é que cada um de nós vai para a cama, para o casamento e para a fila do estádio acompanhado, antes de tudo, da própria fantasia. Somos dois dançarinos, cada qual com sua música no fone de ouvido. Quando a dança dá certo, não é porque a música era a mesma, é porque inventamos passos compatíveis. O amor, dizia Lacan, é o que vem suprir essa relação que não há; portanto, não é a prova do encaixe, é, sim, a resposta ao desencaixe. [5]
A cena de julho ilustra o teorema em escala de estádio. Os homens, diante de Neymar, nem sequer estão em relação com o outro sexo. Estão em relação com o próprio espelho. As mulheres, diante de Haaland, não amam o norueguês real, que aliás, não conhecem. Amam o sinal de que existiria ao menos um homem para quem uma mulher não é apenas uma da série de mulheres (todas), e sim a parceira. Ele sonha em ser, ela sonha em ter, e esses dois sonhos não conversam entre si.
Tese elegante, não? Pois agora me deixem destruí-la.
As Neymarzetes pedem a palavra
A primeira objeção ao meu próprio argumento é que as mulheres amaram Neymar. Amaram muito, amaram antes, amaram aos gritos. As Neymarzetes foram um fenômeno de massa quando Haaland ainda pedia carona para o treino do Bryne. Se o desejo feminino viesse de fábrica programado para fazendeiros fiéis, o moicano de 2012 não teria derrubado a Vila Belmiro. A recíproca também vale. Existe uma multidão de homens que idolatra Haaland, o robô, a máquina de gols que virou personagem de videogame. A partição que coloca os homens de um lado e as mulheres do outro é limpa demais para ser verdadeira. E aprendi a desconfiar de toda partição limpa demais. Em geral, ela fala mais de quem particiona do que do particionado.
A segunda objeção é a sociológica. Haaland também é um produto; a discrição é uma marca, a simplicidade é uma curadoria. O amor das brasileiras pelo norueguês é também o velho encanto pelo estrangeiro, o príncipe de um reino distante onde os jogadores namoram amigas de infância, talvez porque em Bryne, com seus doze mil habitantes, as opções de balada sejam limitadas. A distância é o photoshop da alma. Se Haaland jogasse no Brasileirão, com colunista de fofoca acampado na porta do condomínio e um primo dando entrevista, quanto tempo sobreviveria a fantasia? Nós não amamos Haaland. Amamos o fato de que ele mora longe o bastante para não nos decepcionar. O sociólogo Zygmunt Bauman poderia até completar o raciocínio dizendo que, numa economia de vínculos descartáveis, até a nostalgia do amor sólido virou mercadoria. Consumida, ironicamente, em stories de quinze segundos.
A terceira objeção é a mais incômoda de todas. Quem disse que o suspiro feminino por Haaland é escolha amorosa? Voltem aos comentários no perfil de Isabel. Eles não se endereçam a ele. Endereçam-se a ela. Lindinhos, escrevem. Vocês são adoráveis. O que se ama ali é o casal, e sobretudo o lugar de Isabel dentro dele. A menina comum de cidadezinha que foi escolhida. A amiga de infância que venceu, sem cirurgia e sem post patrocinado, todas as concorrentes do mercado global do desejo. Isso não é querer ter Haaland, isso é querer ser Isabel. E, de repente, a antítese engole a tese. Essas identificações ocorrem de ambos os lados, e a bela simetria entre ser e ter se desmancha no ar.
A quarta objeção, a filosófica, serra o galho onde estou sentada. Ao dividir o mundo entre homens que querem ser e mulheres que querem ter, o que fiz eu senão escrever uma fórmula da relação entre os sexos? Ora, se não há relação sexual, se nenhuma fórmula escreve o encaixe, então a minha fórmula também não escreve. Minha tese comete o pecado que denuncia. Tapa o abismo com uma tabela.
O abismo não escolhe time
E, no entanto, e é aqui que a dialética paga o ingresso, a antítese não derruba a tese. Ela a radicaliza.
Reparem no que sobrou depois da demolição. As Neymarzetes amavam uma imagem. Os meninos que idolatram o robô amam uma imagem. As brasileiras no perfil de Isabel amam uma imagem, a do casal que teria dado certo. Os homens que xingam quem critica Neymar defendem uma imagem. Ninguém, em nenhuma das quatro arquibancadas, está em relação com uma pessoa real. Todos fazemos exatamente a mesma coisa. Amamos fantasias que recobrem o mesmo abismo. A antítese não provou que a tese era falsa. Provou que ela era pequena. O desencontro não passa entre homens e mulheres como uma fronteira entre dois países. Passa por dentro de cada um de nós, como uma falha geológica. O próprio Lacan avisou que masculino e feminino, nas suas fórmulas, são posições de gozo [6] e não documentos de identidade. Há mulheres do lado Neymar da vida e homens do lado Haaland, e a maioria de nós atravessa essa fronteira várias vezes por dia, geralmente sem visto.
Quanto à objeção que me acusava de escrever fórmulas impossíveis, ela não é uma refutação, é uma confirmação. É justamente porque não há relação sexual que não paramos de tentar escrevê-la. Todo horóscopo, todo teste de compatibilidade, toda tipologia de aplicativo de namoro e todo artigo de opinião sobre Neymar e Haaland, este incluído, é mais uma tentativa de grafar a proporção que não se deixa grafar. A psicanálise não está fora do sintoma que descreve. Está dentro, tomando notas.
O que sobra, então? Sobra o que sempre sobrou; o um por um.
A mulher não existe, dizia Lacan [7], querendo dizer que ela não existe como classe, como fórmula, como tipo. O fã tampouco existe; existem sujeitos, cada qual com seu jeito singular de tapar o buraco, e existe o amor. Não como encaixe encontrado, mas como invenção de todo dia.
E aqui a imagem final se oferece de bandeja, porque Haaland, sem saber, escolheu a metáfora perfeita. Ele não sonha em ser dono de fazenda, sonha em ser fazendeiro. A diferença é tudo. O dono possui, o fazendeiro lavra. Acorda cedo, aduba, colhe pouco, recomeça. Se o casal de Bryne tem algo a nos ensinar, não é que o encaixe existe e mora na Noruega. É que o amor se parece menos com um gol de placa e mais com uma lavoura. Suplência [8], dizia o velho Lacan, com sua palavra feia para uma coisa bonita. A ponte que dois inventam, todos os dias, sobre um abismo que não fecha nunca.
Não há relação sexual. Há, com sorte, um trator para dois.
Notas
[1] FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). É nesse texto que Freud distingue a identificação, o mais primitivo laço afetivo com um outro tomado como modelo (aquilo que se gostaria de ser), da escolha de objeto, na qual o outro é investido como objeto de amor (aquilo que se gostaria de ter).
[2] A expressão latina puer aeternus (menino eterno) vem das Metamorfoses de Ovídio e foi incorporada por C. G. Jung à sua teoria dos arquétipos. O conceito foi desenvolvido por Marie-Louise von Franz em Puer aeternus (1970) e designa o adulto que permanece preso à psicologia da adolescência, vivendo uma "vida provisória" na qual todo compromisso é adiado e a promessa de um futuro grandioso substitui a realização presente, pois realizar exigiria aceitar limites e envelhecer.
[3] Bryne é uma cidade de cerca de doze mil habitantes no distrito de Jæren, região agropecuária do sudoeste da Noruega, onde Haaland cresceu e iniciou a carreira no modesto Bryne FK, clube em cujas categorias de base também jogou Isabel Haugseng Johansen. Foi ali que o atacante conviveu desde cedo com a vida rural que hoje projeta para a aposentadoria.
[4] "Il n'y a pas de rapport sexuel." A fórmula, cunhada por Lacan no início dos anos 1970 (em "O aturdito" e no Seminário 20, Mais, ainda), joga com o duplo sentido de rapport, relação e proporção. O que não existe é uma proporção inscrita no inconsciente que faça de um sexo o complemento natural do outro. A fórmula não nega o ato sexual nem os laços amorosos; nega que haja para eles um programa prévio, razão pela qual o encontro precisa ser inventado caso a caso.
[5] No Seminário 20, Lacan afirma que o que vem em suplência à relação sexual que não há é, precisamente, o amor (LACAN, 1985). O amor não realiza o encaixe impossível; ele faz laço apesar dessa impossibilidade, e é justamente essa a sua dignidade.
[6] Gozo (jouissance) não se confunde com prazer. Designa, em Lacan, uma satisfação paradoxal, que inclui excesso, repetição e desprazer, para além do princípio do prazer. Nas fórmulas da sexuação do Seminário 20, "homem" e "mulher" nomeiam dois modos de gozar (o gozo fálico e o gozo não-todo), posições em que qualquer sujeito pode se inscrever, independentemente da anatomia.
[7] "La femme n'existe pas." O que Lacan risca é o artigo definido, que universaliza. Não existe "A" mulher como conjunto fechado, essência ou tipo do qual se pudesse extrair uma fórmula; existem mulheres, uma a uma, não-todas. O aforismo é solidário do "não há relação sexual", pois sem um universal da mulher nenhuma fórmula da relação pode se escrever.
[8] Suplência (suppléance) é aquilo que vem no lugar do que falta e passa a cumprir sua função. No último ensino de Lacan, o amor e o sintoma operam como suplências ao não-rapport, invenções singulares com que os parceiros se arranjam com o impossível. Jacques-Alain Miller desenvolve essa via na noção de parceiro-sintoma (MILLER, 2000).
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
CNN BRASIL. Brasil é eliminado da Copa pela Noruega e chega a maior jejum sem títulos. São Paulo, 5 jul. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/copa-do-mundo/brasil-e-eliminado-da-copa-pela-noruega-e-chega-a-maior-jejum-sem-titulos/. Acesso em: 10 jul. 2026.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 12.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. v. 15.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Tradução de Maria Luíza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000.
LACAN, Jacques. O aturdito (1972). In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Tradução de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
MILLER, Jacques-Alain. A teoria do parceiro. In: Os circuitos do desejo na vida e na análise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.
TERRA. Esposa de Haaland é surpreendida com atitude de brasileiros: "Eu até tentei". 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/futebol/copa-2026/. Acesso em: 10 jul. 2026.
VON FRANZ, Marie-Louise. Puer aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. Tradução de Cecília Prada. São Paulo: Paulus, 1992.



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