O último voo da Nave (e a guerra contra o brincar)

Sábado passado, milhares de pessoas foram a São Paulo cantar "Ilariê" em coro, vestidas de estrelinha, de Baby Cash, de paetê. Na segunda-feira já se sabia o veredito da internet. A música era "brega", o playback foi flagrado, e o pior pecado de todos, aparentemente imperdoável, adultos se vestiram a caráter para ir a um show. A partir daí, o tribunal moral de sempre abriu os trabalhos, com a sentença já pronta, gente grande que não quer sair da infância.
Mas ela ia cantar o quê, ao vivo, sem base nenhuma, depois de décadas de carreira e de uma logística de show que envolve trapézio, coreografia e produção de grande porte? O playback, aliás, é o argumento mais preguiçoso dessa crítica toda, ele funciona como cortina de fumaça técnica para dizer, sem precisar dizer, que aquele público não merecia estar ali. Fala-se de sincronia labial para não precisar admitir o que incomoda de verdade, o fato de que gente grande estava se divertindo em público, sem pedir licença a ninguém.
De tempos em tempos eu ia à Trash só para dançar Trem da Alegria. E quer saber? Era ótimo. Eu amo futebol, mas você acha mesmo que um estádio lotado, cantando músicas, xingando juiz e comemorando gol é um programa "adultíssimo"? Não é. E nem precisa ser.
A gente precisa, de vez em quando, sair da realidade, brincar, cantar, entrar em outra atmosfera. Faz parte da experiência humana. Como psicanalista, eu diria que nossa criança não desaparece quando crescemos; ela continua existindo e precisa encontrar formas simbólicas e saudáveis de se expressar. Quando isso é reprimido, muitas vezes retorna de outras formas (o famoso retorno do recalcado) e pode aparecer como agressividade, intolerância e, em casos extremos, até comportamentos violentos. Freud já descrevia a brincadeira infantil como a primeira forma de elaboração psíquica, o fort-da do netinho, o carretel que some e volta, o domínio simbólico sobre a ausência; o adulto que canta "Ilariê" em coro está fazendo, guardadas as proporções, algo parecido, simbolizando através do brincar coletivo uma falta que a vida adulta não para de produzir. Huizinga, em "Homo Ludens", já apontava que o jogo não é resíduo de infância mal resolvida, é o próprio chão sobre o qual a cultura se ergue.
A tese que sustenta esse tipo de crítica é simples, quase confortável de tão repetida, brincar é coisa de criança, e adulto que insiste nisso tem algum problema de desenvolvimento a resolver. O curioso é que essa tese nunca é aplicada de forma igual.
Vale lembrar o que este país já viu acontecer sem que ninguém convocasse tribunal nenhum. Em 2016, homens adultos de terno e crachá saíam do escritório na hora do almoço para caçar Pokémon em praça pública, alguns dirigindo pela cidade de madrugada atrás de um bicho raro no parque, e aquilo virou reportagem simpática, pauta de tecnologia, estudo de caso de marketing. A cada quatro anos, executivos, professores e pais de família se encontram em bancas de jornal e em grupos de WhatsApp para trocar figurinha repetida do álbum da Copa, negociando craque como quem fecha contrato, e isso não é infantilidade, é tradição, é afeto nacional, é matéria de jornal de domingo. Ninguém acusa de imaturidade o adulto que dorme na calçada para garantir ingresso de show de rock, nem o que veste a camisa do time todo domingo, nem o que passa a madrugada zerando um jogo, nem quem enfrenta doze horas de fila para ver a estreia de um filme de super-herói. Esses, curiosamente, ganham outro nome, viram fã dedicado, colecionador, apaixonado, geek raiz. O brinquedo do menino virou cultura, com convenção, indústria bilionária e até currículo de LinkedIn. O brinquedo da menina continua sendo motivo de vergonha.
Eu vivi essa discrepância na pele, embora do lado invertido do gênero. Fui jogadora de RPG de mesa e de RPG live action no final dos anos 1990 e começo dos 2000, quando isso era febre entre nós, e o público, sempre, foi predominantemente masculino. As poucas meninas que apareciam, na maioria das vezes, estavam ali como namoradas dos rapazes, apêndice social da paixão de outro, não exatamente sujeitos do próprio desejo lúdico. As que iam por gostarem por si mesmas eram exceção dentro da exceção, e ainda assim precisavam provar, o tempo todo, que aquele prazer também era legitimamente delas.
A antítese, então, se impõe sozinha, sem que ninguém precise formulá-la. Se brincar fosse mesmo, por definição, sinal de imaturidade, a crítica valeria igual para todo mundo, e não vale. Ela se aplica com muito mais rigor a um público específico, majoritariamente feminino, que decidiu cantar músicas de uma apresentadora que marcou sua própria infância. A hipocrisia não está em condenar o brincar adulto; está em condenar apenas um tipo de brincar adulto, justamente aquele que não pede autorização de nenhuma autoridade masculina para fazer sentido.
E é aqui que talvez se chegue a uma síntese possível, entre "brincar é infantilidade" e o "só quando é feminino, vira infantilidade". O que realmente incomoda não é a brincadeira em si; é a brincadeira que escapa ao controle, que não pede aprovação, que se organiza em torno de um prazer autônomo. E esse tipo específico de prazer, historicamente, tem sido negado ou ridicularizado quando é uma mulher quem o exerce.
Há um detalhe que talvez explique parte da coisa, e ele tem a ver com dinheiro. A nostalgia masculina quase sempre encontra um álibi produtivo; a figurinha rara tem valor de revenda, o boneco lacrado é investimento, a coleção é patrimônio, o jogo é indústria, o campeonato é economia. Existe uma engrenagem inteira pronta para transformar aquele afeto em mercado e, ao fazer isso, em respeitabilidade. Já a mulher que compra ingresso para cantar "Lua de Cristal" não está colecionando nada, não vai revender nada, não vai capitalizar aquilo em lugar nenhum. É gasto puro, gozo sem retorno, prazer que não presta contas. E numa cultura que só sabe legitimar aquilo que rende, prazer que não rende vira, automaticamente, prazer suspeito.
Todo mundo, no fundo, gira em torno de um objeto perdido; é disso que a psicanálise fala quando fala do desejo, esse movimento que contorna algo que não se recupera jamais. A nostalgia é uma das formas mais banais e mais humanas desse contorno. O que muda, de um caso para o outro, não é a operação psíquica; é a autorização social para realizá-la. E aí a coisa fica bastante clara, a nostalgia é ternura quando é minha, e é patologia quando é do outro ou outra, neste caso. Freud, aliás, deixou uma frase que cai como uma luva nesse debate, a de que os histéricos sofrem principalmente de reminiscências. Vale lembrar de onde vem a palavra histeria (do grego hystera, útero) e a quem esse diagnóstico foi aplicado durante séculos. Sofrer de reminiscências, quando é mulher, sempre teve nome de doença.
E não é só com as mulheres adultas que isso acontece. O mesmo escárnio, quase com as mesmas palavras, cai sobre as adolescentes.
São elas que montam barraca na calçada meses antes do show, que se organizam em fila numerada com lista, escala e rodízio, que fabricam pulseirinhas da amizade para trocar com estranhas, que constroem fandoms com divisão de tarefas, arrecadação coletiva, ação social, produção de conteúdo e uma capacidade de mobilização que qualquer partido político gostaria de ter. Do lado de fora, isso tudo é descrito como surto, histeria coletiva, coisa de menina boba. Repare que quando adolescentes homens acampam na porta de uma loja por um videogame novo, a manchete fala em lançamento histórico; quando são meninas na porta de um estádio, a manchete fala em loucura.
A lógica comum é a mesma que atravessa o show da Nave, e ela é bem antiga. Mulheres e adolescentes ocupam, no imaginário social, o lugar dos que ainda não têm plena autoridade sobre o próprio juízo, aqueles cujo entusiasmo pode ser lido como excesso e cujo gozo pode ser diagnosticado em vez de escutado. As duas figuras compartilham a mesma sentença, sentir demais, gostar demais, gastar demais com aquilo que não deveria importar tanto.
A história costuma dar o troco, embora com décadas de atraso. As mesmas garotas gritando nos shows dos Beatles, tratadas na época como caso clínico coletivo, sustentaram o que depois virou cânone da música ocidental. O gosto adolescente feminino tem um histórico impressionante de acertar primeiro e ser respeitado por último, quando homens adultos finalmente resolvem escrever ensaios sérios sobre aquilo que ridicularizaram vinte anos antes.
Essa disputa por quem pode brincar de quê acompanha um movimento maior, e bem mais incômodo para certas estruturas, o das mulheres ocupando espaços até pouco tempo tidos como masculinos, quase por decreto. Ano que vem tem Copa do Mundo feminina, e o estádio, esse território sagrado da masculinidade brasileira, vai se encher de novo de mulheres gritando gol, xingando juiz, vivendo a mesma paixão inteira que sempre foi permitida aos homens sem questionamento algum. As salas de cinema recebem, cada vez mais, mulheres apaixonadas pelo universo Marvel, discutindo teoria de multiverso com a mesma propriedade de qualquer nerd de carteirinha. Nos cargos públicos, mulheres avançam em posições de gestão, coordenação e formulação de políticas públicas; no setor privado, ocupam cada vez mais cadeiras de liderança que, até outro dia, pareciam reservadas por natureza a outro gênero.
E é justamente aí que mora o incômodo mais difícil de admitir. Não é tanto que a mulher esteja conquistando espaços antes exclusivamente masculinos, embora isso já doa em alguns. É que ela transita entre os dois mundos com uma facilidade que ao homem, dentro do arranjo que ele mesmo ajudou a construir, foi historicamente negada.
Cabe perguntar, sem ironia nenhuma, quantos homens não gostariam de ter ido ao show da Xuxa, de ter passado glitter e pena pelo corpo, de terem brincado daquele jeito bobo e lúdico, sem cálculo, sem competição, sem precisar provar nada para ninguém. Quantos não trocariam, de bom grado, uma tarde de churrasco barulhento por uma tarde inteira em casa com os filhos, brincando, sem hora para acabar. A mulher, historicamente, sempre teve mais licença simbólica para transitar entre registros, o do cuidado, o do lúdico, o da força, o da razão, o da emoção, sem que isso ameaçasse sua identidade. Ao homem, esse trânsito custou sempre muito mais caro, fugir do script viril tem um preço alto, o medo do ridículo, o medo da desqualificação entre outros homens, o medo de deixar de ser reconhecido como homem. Talvez seja por isso que ele precise que a caça ao Pokémon venha embrulhada em tecnologia e que a figurinha repetida venha embrulhada em futebol; o brincar, para ele, precisa de um disfarce que o autorize.
Não quero aprofundar essa questão agora, até porque merece um espaço só dela, mas fica a pergunta em aberto, para que possamos retomá-la com mais tempo. Será que não é justamente esse feminino reprimido no homem, essa parte dele que também quer brincar, cuidar, sentir, se enfeitar, e que ele aprendeu a esconder a qualquer custo, o combustível de tanta violência? Talvez o ódio dirigido às mulheres não nasça, no fundo, do fato de elas conquistarem lugares que antes eram deles. Talvez nasça da facilidade com que elas transitam entre os mundos, tarefa que, para o homem, ainda representa uma ameaça imaginária, uma ameaça que ele sente custar a própria existência.
Lacan, ao afirmar que "a mulher não existe", não negava o sujeito feminino, apontava que nenhum significante dá conta de capturar por inteiro esse gozo, sempre um pouco excedente à lógica fálica que organiza o mundo. Uma cultura estruturada sobre essa lógica tende a tratar como ameaça qualquer prazer que escape ao seu controle, mesmo quando esse prazer é, na superfície, tão inofensivo quanto cantar "Ilariê" em coro com outras cinquenta mil pessoas.
Rita Segato fala em mandato de masculinidade, essa exigência de provar, sempre, diante de outros homens, que se é homem o suficiente; Heleieth Saffioti fala em pacto patriarcal, a aliança silenciosa que decide o que pode ser celebrado e o que deve virar vergonha. Os dois conceitos se encontram exatamente no ponto que essa crítica ao show revela sem querer, o alvo preferencial da vergonha é sempre aquilo que dá prazer a alguém sem depender da aprovação masculina.
A Nave decolou de novo, lotada, sem pedir licença a ninguém. E talvez o verdadeiro assunto do fim de semana não devesse ser o playback, nem a coreografia, nem o figurino e muito menos o setlist; talvez fosse essa pergunta mais incômoda, ainda sem resposta fechada, sobre o que realmente nos assusta quando vemos alguém, de qualquer gênero, brincando livre, sem pedir licença a mais ninguém.
Referências
EHRENREICH, Barbara; HESS, Elizabeth; JACOBS, Gloria. Beatlemania: girls just want to have fun. In: LEWIS, Lisa A. (org.). The Adoring Audience: Fan Culture and Popular Media. Nova York: Routledge, 1992. p. 84-106.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, volume 14. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (1893-1895). Obras completas, volume 2. Tradução de Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. A repressão (1915). In: Obras completas, volume 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. Tradução de João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 2019.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
Referências jornalísticas
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FEBRE nos EUA, Pokémon Go preocupa pais e entidades de proteção à infância. Agência Brasil, Brasília, 31 jul. 2016. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-07/febre-nos-eua-pokemon-go-preocupa-pais-e-entidades-de-protecao. Acesso em: 27 jul. 2026.
PLAZA, William R. Relembre o lançamento de Pokémon Go no Brasil. Hardware.com.br, 2026. Disponível em: https://www.hardware.com.br/artigos/relembre-lancamento-pokemon-go-brasil/. Acesso em: 27 jul. 2026.
TROCA de figurinhas da Copa diverte colecionadores e fãs do esporte. Agência Brasil, São Paulo, 23 out. 2022. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2022-10/troca-de-figurinhas-da-copa-diverte-colecionadores-e-fas-do-esporte. Acesso em: 27 jul. 2026.
TROCA de figurinhas pode atenuar alto custo do álbum da Copa do Mundo. Agência Brasil, Brasília, 19 jun. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2026-06/troca-de-figurinhas-pode-atenuar-alto-custo-do-album-da-copa-do-mundo. Acesso em: 27 jul. 2026.
ÁLBUM da Copa: como as figurinhas repetidas impulsionam negócios que se tornaram ponto de encontro dos colecionadores. Seu Dinheiro, 11 jun. 2026. Disponível em: https://www.seudinheiro.com/2026/seu-negocio/album-da-copa-como-as-figurinhas-repetidas-impulsionam-negocios-que-se-tornaram-ponto-de-encontro-dos-colecionadores-giov/. Acesso em: 27 jul. 2026.



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