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O Brasil que já é o futuro: O que um meme de futebol revela sobre a nossa potência simbólica.

Foto do escritor: Fabiana Louro
Fabiana Louro
5 de jul.
15 min de leitura

Semana passada, um vídeo de poucos segundos atravessou fronteiras que a diplomacia demoraria décadas para atravessar, provavelmente. Um fã brasileiro, de posse de uma ferramenta de inteligência artificial e, imagino, de bastante tempo livre (ou nem tanto, considerando a espantosa capacidade do brasileiro de inventar tempo onde não existe nenhum), recriou a cena mais icônica de As Branquelas, trocando os protagonistas por Vini Jr. e Erling Haaland. O norueguês viu, se reconheceu na hora e fez o que qualquer um de nós faria. Marcou o brasileiro nos comentários, rindo. “Precisamos recriar isso.” Terry Crews, o ator de carne e osso da cena original, apareceu na conversa chorando de rir. Vini respondeu do jeito que só um brasileiro responde, com um “HAHAHAHAHA” digno de alarme sonoro.


Poderia ser só mais um episódio qualquer de humor esportivo, uma daquelas migalhas de entretenimento que a internet produz e esquece em 48 horas, ou até menos. Mas essa cena minúscula é, sem exagero nenhum, um retrato em miniatura de algo que o brasileiro insiste em não reconhecer sobre si mesmo. A extensão da própria potência simbólica.


O engano de Haaland (e é bem sincero)

Em entrevista, Haaland contou que achou graça em se ver retratado como “uma garota loira”. O que sugere, com toda a gentileza do mundo, que ele nunca assistiu ao filme original. Porque a personagem a que ele se referiu como uma mulher loira é, na verdade, um homem negro. Mais especificamente, um agente do FBI disfarçado, infiltrado para investigar um crime. A trama de As Branquelas (2004) segue dois agentes negros, vividos por Shawn e Marlon Wayans, que se travestem de socialites brancas e loiras para resolver o caso. É um filme sobre disfarce, sobre passar por outro, sobre a comédia que nasce da distância entre quem se é e quem se finge ser. Isso, sozinho, já daria pano pra outro artigo, sobre raça, gênero e humor americano.


Mas o que interessa aqui é outro dado, bem menos comentado. "As Branquelas" foi um fracasso relativo nos Estados Unidos. A crítica americana arrasou (negativamente) com o filme, que somou cinco indicações ao Framboesa de Ouro, o “anti-Oscar” criado especialmente para humilhar o pior do cinema do ano. Fora do Brasil, quando alguém lembra do filme, lembra como uma comédia rasa dos anos 2000. Aqui virou clássico cult, repositório de falas que todo brasileiro nascido entre 1985 e 2000 sabe recitar de cor, de olhos fechados, sem errar uma vírgula.


A dublagem como arte nacional

A explicação para essa disparidade não está no roteiro original. Está na voz que os brasileiros deram a ele. Duda Ribeiro e Nizo Neto, os dubladores responsáveis pelos protagonistas, não traduziram o filme, reescreveram o filme. Enfiaram gírias, tiradas e referências que não existiam no roteiro em inglês. Hebe Camargo, Ratinho e outras pérolas que nenhum roteirista de Los Angeles teria coragem sequer de imaginar. E não há aqui nenhuma intenção de desmerecer os roteiristas americanos. O que existe é outra coisa, a nossa capacidade de juntar referências completamente soltas entre si e, com uma genialidade que parece de fábrica, fazer delas algo que não vira um Frankenstein.


Porque o Frankenstein, mesmo de pé, mesmo inteiro, se monstrifica aos olhos do próprio criador, ele é retalho costurado, sempre denunciando a costura. Já o brasileiro faz nascer um ser novo de verdade, como se todos os retalhos fossem primeiro triturados até virarem uma substância só, e só depois dessa substância nova é que a criação de fato acontece. O resultado é uma segunda obra, paralela à primeira, que usa a carcaça do filme americano para contar uma piada genuinamente brasileira.


Isso não é acidente nem exceção. A dublagem brasileira é, com uma regularidade impressionante, uma das mais respeitadas do mundo. É um ofício que exige atores, tradutores e diretores capazes de recriar timing cômico, trocadilho e musicalidade de fala em outro idioma, sem que o espectador sinta a costura. E, no entanto, segue sendo um dos ofícios menos reconhecidos da nossa produção cultural. Quase nunca aparece em lista de orgulho nacional. Não tem estatueta, não tem categoria de premiação global, não vira pauta de telejornal. É trabalho invisível. Ainda assim, é esse trabalho invisível que transforma um fracasso de bilheteria americano em ícone de uma geração inteira de brasileiros.


Comer o estrangeiro, cuspir outra coisa

Em 1928, Oswald de Andrade publicou o Manifesto Antropófago, talvez o texto mais lúcido já escrito sobre o jeito brasileiro de lidar com a cultura estrangeira. A proposta de Oswald é simples e, ao mesmo tempo, radical. O Brasil nunca vai produzir uma cultura genuinamente sua copiando a Europa, nem recusando a Europa. A saída é devorar a Europa. Incorporar o estrangeiro, digerir com os ingredientes daqui (a mistura indígena, africana e europeia que nos formou) e devolver algo novo. Uma coisa que não é mais francesa, nem americana, nem portuguesa. É brasileira, porque passou pelo nosso estômago simbólico antes de sair pela boca. E essa referência não precisa parar na Europa. Vale exatamente do mesmo jeito para os Estados Unidos, para o Japão, para a Coreia, para qualquer cultura estrangeira que cruze o nosso caminho e saia daqui com sotaque novo.


A dublagem de "As Branquelas" é antropofagia em estado puro. Não é cópia servil, tipo legenda ou tradução ao pé da letra. Também não é rejeição, tipo boicote ao produto de fora. É devoração pura. Pega-se o material estrangeiro e devolve-se ao público uma coisa nova, com sotaque, com piada local, com Hebe Camargo lá dentro.


O mesmo movimento se repete, sem parar, nos memes brasileiros. Pegamos uma cena de novela mexicana, uma fala de político americano, um gesto de jogador europeu, e em poucos minutos produzimos uma camada de sentido que não estava ali antes. Com frequência, essa camada nova atravessa a fronteira de volta e faz sucesso justamente onde nasceu o material original. Terry Crews rindo do próprio meme, na própria cena que ele estrelou décadas atrás, é a antropofagia fechando o ciclo com chave de ouro. Devoramos o americano e depois o purgamos, tal qual o jacu, aquele pássaro do interior do Espírito Santo que escolhe só os melhores grãos de café, come, digere e devolve intactos por dentro, prontos para virar um dos cafés mais caros do mundo.


Pode parecer nojento pensar no processo dessa forma, existe mesmo algo (in)familiar* em associar criação a excremento, mas o material que sai do processo costuma ser superior ao que entrou.


O império dos comentários

Essa capacidade de fabricar sentido em cima de qualquer material alheio tem uma extensão que pouca gente tomaria um tempo tentando nomear. O brasileiro, coletivamente, tomou de assalto a seção de comentários da internet mundial. “Come to Brazil” virou piada internacional de tão repetida nos perfis de artistas globais. Quando Donald Trump restringiu os comentários das próprias redes, depois de uma enxurrada de brasileiros ocupando o espaço com trechos do hino nacional e defesas inflamadas do país, a imprensa internacional cobriu o episódio como fenômeno cultural. Nazaré Tedesco, personagem de novela, virou meme mundial. O vídeo de um rapaz fazendo um espacate num programa de auditório foi remixado pelo próprio Will Smith em suas redes. Um crocodilo de brinquedo em um telão de futebol virou ícone da comunidade drag americana. Um jogador de várzea sem clube profissional, o Luva de Pedreiro, juntou milhões de seguidores internacionais só de tanto driblar num campo de terra.


E quando o brasileiro discorda, ele também tem ritual próprio, um ritual e tanto. Chama-se vampetaço, em homenagem ao ex-jogador Vampeta, que posou nu para uma revista nos anos 1990 [provavelmente, depois de umas caipirinhas a mais, ou honorários generosos]. Toda vez que uma autoridade, um comunicador ou um perfil qualquer solta uma opinião que o brasileiro considera um desaforo, a internet nacional reage inundando os comentários da pessoa com fotos do ensaio de Vampeta. Não tem xingamento, não tem ameaça. Tem nudez involuntária de um ex-jogador, hoje comentarista esportivo, como forma de protesto. É ultraje puro, mas ultraje com senso de piada, o tipo de manifestação cívica que só nasce num país onde ironia é quase uma segunda língua oficial.


Nada disso é acaso. É a mesma competência simbólica em ação, a de pegar qualquer material (um jogo, uma cena, uma frase de efeito) e reprocessar com humor, ritmo e uma leitura que ninguém mais teve. O dado costuma virar munição contra nós. “O brasileiro vive na internet”, “o brasileiro não tem o que fazer”. E é verdade que os brasileiros disputam, ano após ano, a liderança dos rankings globais de tempo diário em redes sociais, algo em torno de três horas e meia por dia, bem acima da média mundial. Mas o mesmo dado, olhado de outro ângulo, descreve o maior laboratório de produção de humor, crítica e narrativa coletiva em tempo real que o mundo já teve. Excesso de tela, aqui, também é excesso de produção simbólica.


O que Lacan tem a dizer sobre uma piada

Freud já tinha notado, em Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905), que o chiste não é acidente de linguagem. É uma das vias mais econômicas de satisfação pulsional que o sujeito tem à disposição, o inconsciente aproveitando uma brecha na língua para dizer o que, de outro modo, ficaria calado. Lacan radicaliza essa leitura. No Seminário 5, ele coloca o chiste no coração da constituição do sujeito no campo do Outro. E acrescenta uma condição que interessa muito ao nosso caso. O chiste só se realiza de fato diante da “paróquia”, uma comunidade que compartilha o mesmo tesouro de significantes. Sem esse terceiro que ri junto, reconhecendo a referência, o chiste não funciona. Fica letra morta, piada que ninguém entendeu na mesa do bar.


O meme brasileiro é, estruturalmente, esse dispositivo. Não existe sem um Outro que reconheça a piada, que feche o circuito de sentido rindo junto. E é justamente esse circuito que o brasileiro sabe operar com uma velocidade e uma densidade cultural fora do comum. Um meme bem-feito comprime, numa imagem ou num áudio de segundos, referência de novela, de religião, de futebol, de política e de música popular, tudo junto. Esse comprimido só estoura porque existe uma paróquia nacional inteira pronta para decodificar tudo isso na hora, sem manual de instruções. Quando essa paróquia se expande, quando um estrangeiro como Haaland ou Terry Crews entra na roda e ri também, o que está em jogo não é só entretenimento. É a prova de que aquele laço social, tecido em código bem local, é forte o bastante para recrutar quem estava de fora olhando.


Vale explorar mais uma camada, essa bem lacaniana. Historicamente, o brasileiro não chegou ao mundo simbólico pela porta da leitura. Pulou, em boa parte, direto do analfabetismo para o rádio e a televisão. A leitura, sempre tratada como o aparato nobre, o caminho reconhecido como verdadeiro e necessário para o pensamento sério, nunca foi de fato a base da formação da maioria dos brasileiros. E isso, em vez de empobrecer, pode ter produzido o efeito contrário. Fez o significante prevalecer com ainda mais força sobre o significado fixo. Quem aprende o mundo pelo som, pela imagem, pela fala e pela repetição do rádio e da televisão treina um músculo diferente do de quem aprende pela letra presa na página. Aprende a deslizar de um significante para outro, a associar livre, a fazer a piada valer mais pelo deslocamento do que pela sua definição exata.


Talvez seja por isso que produzimos, com uma naturalidade quase assustadora, o tipo de deslocamento de sentido que é a alma do meme, num traço que lembra até os atores da Commedia dell'Arte italiana. Lá, o texto também não vinha fechado numa página. Vinha de um canovaccio, um roteiro solto que só marcava a cena e a situação, deixando a piada de verdade para a improvisação na hora, apoiada em rotinas cômicas guardadas de cor e passadas de ator para ator, muito mais pela prática e pela repetição oral do que pela escrita. Enquanto isso, quem se formou pela via mais solene da leitura tende a ficar preso à definição clássica, possibilitando menor deslocamento do seu sentido.


Jeitinho, gozo e o excesso que produz


A antropóloga Lívia Barbosa descreveu o jeitinho brasileiro como uma forma de resolver criativamente situações difíceis, proibidas ou emergenciais. Uma competência que oscila entre o favor e a corrupção, mas que, na origem, é resposta inventiva à escassez e à regra rígida demais para a vida real. É a mesma lógica, aliás, que explica a cozinha de aproveitamento nascida da fome, a gambiarra que conserta o que já devia ter ido pro lixo, o funk que nasce do sucateamento de equipamento de som, o passe de bola que se inventa porque faltava campo de verdade e sobrava vontade. O Brasil tem um histórico e tanto de transformar limitação em estilo.


Falando em termos psicanalíticos, há algo da ordem do gozo nesse excesso todo. A produção compulsiva de meme, de comentário, de piada, de dublagem paralela não é só estratégia de sobrevivência simbólica. É também satisfação, insistência pulsional que encontra na linguagem o território mais acessível para se expressar. Não tem ingenuidade nenhuma em celebrar isso. Tem, sim, o reconhecimento de que aquilo que a moral do desenvolvimento chama de vício em tela pode ser, ao mesmo tempo, sintoma e amarração. A maneira bem particular como um povo inteiro liga o próprio gozo à palavra, à piada, à fala, em vez de ligar a outra coisa qualquer.


Nem toda viralização é vitória

Seria desonesto fechar esse raciocínio sem reconhecer os limites dele. Viralizar não é a mesma coisa que vencer. Nenhum desses episódios gera, sozinho, emprego, renda ou política pública, e boa parte da euforia do meme se dissolve em 48 horas, sem deixar instituição, sem deixar arquivo, sem deixar quase nada além da lembrança da risada. O próprio jeitinho que estamos celebrando aqui como inventividade é, na descrição da própria Barbosa, ambíguo por natureza. A mesma engenhosidade que resolve um problema informalmente é a que sustenta fila furada, corrupção de bolso e atalho que prejudica quem não tem o contato certo. Romantizar a criatividade nascida da escassez também cobra seu preço ético. Corre o risco de normalizar a escassez em si, como se fome e falta de recurso fossem, antes de mais nada, matéria-prima de cultura, e não uma urgência que precisa ser resolvida.


E o dado sobre tempo de tela, quando tomado sem nuance, preocupa de verdade. Uso compulsivo de redes sociais tem correlação estudada com ansiedade, comparação social e fragmentação de atenção, e nada neste texto quer negar isso. O ponto aqui não é trocar um clichê (“o brasileiro é preguiçoso, viciado em celular”) por outro (“o brasileiro é genial, sempre, em qualquer circunstância”). O ponto é notar que, no meio do mesmo comportamento que a imprensa e o senso comum tratam como patologia ou perda de tempo, floresce uma produção simbólica de altíssima densidade. E essa produção quase nunca entra na conta quando avaliamos, como povo, o nosso próprio valor.


A sombra, o ouro e o antídoto

Talvez o próximo passo desse raciocínio não seja escolher um lado, entre o Brasil genial e o Brasil precário, mas aceitar que os dois moram na mesma casa. Carl Jung chamava de sombra tudo aquilo que a consciência de uma pessoa, ou de um povo, empurra para debaixo do tapete por vergonha, medo ou reprovação moral. E fazia questão de lembrar que a sombra não guarda só defeito. Além de defeitos, a sombra guarda também ouro, como motivação, criatividade e vitalidade que a pessoa nunca teve coragem de reconhecer.


O Brasil trata boa parte de si mesmo como sombra. A corrupção do jeitinho, o excesso de tela, a irreverência que vira zombaria, o hábito de rir de tudo, inclusive da própria tragédia, tudo isso costuma entrar na conta como vergonha nacional, prova de atraso, sintoma a ser tratado. Aparece até na conversa fiada de político de plantão, esse que gosta de repetir que o brasileiro é menos produtivo, mais preguiçoso, trabalha menos que o resto do mundo. É provável que o engano esteja bem ali. Possivelmente o brasileiro trabalhe o tempo inteiro, só que num expediente que não entra em nenhuma métrica oficial de produtividade. Trabalha até tomando cerveja no fim de semana, quando inventa do nada um meme certeiro sobre um jogo, uma novela ou a fala de um político. A mente está sempre de plantão, mesmo quando o corpo está de folga. E arrisco dizer, que é nessa zona mal vista, que mora o mesmo material que produz a dublagem genial, o meme certeiro, o vampetaço hilário, o improviso que vira arte. Não são duas coisas separadas, uma boa e outra ruim. São a mesma energia, com destino diferente.


Se isso for verdade, a saída não é higienizar o Brasil dos próprios vícios para só então merecer orgulho. Ao modo junguiano, a saída é integrar. Olhar para a sombra sem fingir que ela não existe e sem se afogar nela também, reconhecendo que o mesmo impulso que produz o jeitinho corrupto é o que produz o jeitinho genial, que a mesma compulsão que gruda o brasileiro na tela por horas a fio é a que produz o meme que faz o mundo inteiro rir.


Ao modo lacaniano, a saída é mais modesta e, talvez por isso, mais honesta. Não existe uma totalidade original esperando para ser recuperada, nenhum Brasil inteiro está escondido lá atrás, só aguardando integração. O que existe é um nó, aquilo que Lacan, perto do fim da vida, chamou de sinthoma, a amarração bem particular que sustenta junto o real, o simbólico e o imaginário de cada sujeito, sem cura possível e, mais interessante ainda, sem necessidade nenhuma de cura. O que se faz com um sinthoma não é desfazê-lo. É desenvolver savoir-faire** (saber fazer), um jeito de lidar com aquilo que não tem conserto, com destreza suficiente para que vire produção em vez de colapso.


E, para os críticos de plantão que já vão chamar isso de resignação, vale o contraponto. Não é pessimismo. É realismo. No fim, talvez o nosso veneno guarde o nosso próprio antídoto. Não em dose que mata, mas naquela dose homeopática que, bem manejada, cura.


Do país do futuro ao futuro que já chegou

Stefan Zweig, em 1941, cunhou a fórmula que carregamos até hoje como maldição e promessa ao mesmo tempo. Brasil, país do futuro. A frase, dita por um europeu fugindo da guerra e encantado com a paisagem, virou piada nacional. “E sempre será”, completa o ditado popular, sugerindo que o futuro brasileiro é uma miragem que recua a cada passo que a gente dá em sua direção. Nelson Rodrigues batizou o reverso dessa mesma moeda de complexo de vira-lata, a inferioridade voluntária com que o brasileiro se coloca diante do mundo, o narciso às avessas que cospe na própria imagem, incapaz de achar em si mesmo um pretexto sequer para a autoestima.


As duas fórmulas, a promessa adiada e o desprezo por si mesmo, têm em comum a mesma estrutura temporal. Colocam a potência brasileira sempre em outro lugar, no porvir ou no exterior, nunca aqui, nunca agora, nunca nesta produção concreta que a gente faz todo santo dia. Talvez seja hora de uma terceira fórmula, incômoda para os dois lados. O Brasil não é o país do futuro. É o país onde o futuro já está acontecendo, de um jeito disperso, nada institucionalizado e, por isso mesmo, invisível aos critérios tradicionais de grandeza. Acontece a cada dublagem que reinventa um roteiro americano fracassado. A cada meme que sequestra a atenção de um jogador norueguês. A cada publicação que faz um presidente americano fechar a própria seção de comentários. A cada prato inventado com sobra de geladeira. A cada batida de funk que nasce sem estúdio, sem produtor e sem pedir licença.


Um Narciso que ainda não se olhou direito

A cena que deu origem a este texto tem, no fundo, uma sequência que cria uma bela história. Um vídeo feito por um fã anônimo, com ajuda de inteligência artificial, brincando com a dublagem de um filme americano que fracassou nos Estados Unidos, acaba fazendo mais sucesso que o material original. Atravessa o Atlântico, chega ao próprio ator que estrelou a cena e ao jogador que a recriação retrata. Os dois riem juntos, dentro da paróquia que o Brasil abriu para o mundo inteiro. Ninguém arquitetou nada disso. Não teve ministério, não teve verba, não teve plano de soft power desenhado em PowerPoint. Teve só o exercício diário de uma competência que atravessa novela, futebol, religião, ciência de boteco e filosofia de bar, e que insiste em se chamar de perda de tempo.


Não se trata de ingenuidade patriótica, nem de fingir que o país não tem problemas reais e urgentes. Tem, e muitos, e essa lista não cabe neste texto. Trata-se, isso sim, de notar que, no meio de tudo isso, existe uma forma de inteligência coletiva, de tradução, de humor e de laço social que o mundo já reconhece, aplaude e até copia. Enquanto isso, a gente segue entretido, feito Narciso às avessas, vasculhando o espelho atrás de um defeito que justifique o velho hábito de se rebaixar.


Quem sabe da próxima vez que alguém apontar para a nossa sombra, ou para o nó que não se desata, lembraremos de perguntar também onde está o ouro, ou o saber-fazer, que ISSO*** esconde.




Notas:

*O Freud chamou de Unheimlich/Infamiliar/Estranho/Inquietante, justamente essa mistura de intimidade e repulsa, aquilo que é profundamente nosso mas volta transformado, quase irreconhecível).

**Savoir faire, em francês, literalmente saber fazer. Lacan usa a expressão completa savoir y faire avec (saber se haver com, saber lidar com) para descrever o que se pode fazer com um sintoma que não tem cura, não desfazê-lo, mas desenvolver uma habilidade prática de conviver e produzir a partir dele.


***ISSO aqui em maiúscula, não é só o pronome demonstrativo. É referência ao Isso freudiano, tradução brasileira do alemão Es, a mesma instância que o latim consagrou como Id. Não é um depósito parado onde ficam guardados impulsos, é a camada mais profunda e mais viva da vida psíquica, anterior a qualquer organização, lógica ou juízo moral, de onde eu e superego aos poucos se diferenciam. É esse fundo que segue empurrando comportamento, desejo e criação por baixo da superfície consciente, moldando o que fazemos e o que inventamos sem percebermos. Faz sentido, então, que seja dali, desse mesmo fundo sem nome, que possam sair tanto o vício quanto o brilho.



Referências

Zweig, S. Brasil, País do Futuro (1941).

Rodrigues, N. “Complexo de vira-lata”, coluna na Manchete Esportiva (1958).

Andrade, O. de. Manifesto Antropófago, Revista de Antropofagia (1928).

Barbosa, L. O Jeitinho Brasileiro, a arte de ser mais igual que os outros (1992).

Freud, S. Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905).

Lacan, J. Seminário 5, As Formações do Inconsciente.

Jung, C. G. Aion, Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (1951), sobre o conceito de sombra.

Reportagens sobre a dublagem de As Branquelas, publicadas por AdoroCinema, Peliplat, NSC Total e Dublagem Brasileira.

Sobre o vampetaço e a carreira atual de Vampeta como comentarista esportivo, verbete da Wikipédia e reportagens do Midiamax e do Torcedores.com.

Sobre o café do jacu, produzido na Fazenda Camocim, Espírito Santo, reportagens de A Gazeta e O Tempo.

Cobertura do meme Haaland e Vini Jr., publicada por The Sun, Ground News, Tribuna e Free Press Journal (julho de 2026).

Dados de uso de redes sociais no Brasil, do Digital Report 2025 (We Are Social e DataReportal).


 
 
 

2 comentários


JESSICA RAMOS
JESSICA RAMOS
06 de jul.

Chega até dar um resgate de orgulho em ser brasileira, obrigada eu amei ler😌

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Fabiana Louro
Fabiana Louro
08 de jul.
Respondendo a

:)

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©2026 por Fabiana Louro

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