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BETS, CAPITALISMO E ILUSÃO DE COMPLETUDE

  • Foto do escritor: Fabiana Louro
    Fabiana Louro
  • 1 de jul.
  • 12 min de leitura

Havia uma promessa bonita na CazéTV. A de que o futebol, enfim, escapava das mãos de quem sempre lucrou com ele sem devolver nada em troca. Casimiro e sua turma prometiam gratuidade, proximidade, uma linguagem que falava com quem nunca tinha voz nos estúdios oficiais. E por um tempo pareceu que isso era verdade.


O que aconteceu depois já sabemos. Durante a Copa de 2026, o mesmo canal que se apresentava como o avesso do sistema virou vitrine de uma enxurrada de apostas. Narradores convidando o público a "colocar a paixão em jogo". Comentaristas anunciando odds¹ turbinadas no meio de uma pausa para hidratação, como quem sugere uma segunda chance de recuperar o que já se perdeu. O próprio Casimiro, questionado sobre o volume de publicidade de bets, resumiu o problema numa frase só, quando disse que não tinha muito o que fazer, que era o que mais pagava e o que fazia o negócio girar. A Senacon abriu investigação. O Ministério da Fazenda passou a estudar alertas de risco nos moldes dos maços de cigarro. Parlamentares acionaram o Ministério Público. E a CazéTV, em nota, disse que ia "evoluir".


A ironia não é nada pequena. O canal que nasceu prometendo democratizar o acesso ao futebol se tornou um dos maiores vetores de uma indústria que lucra justamente com quem tem menos para perder. Mas eu não quero ficar só na denúncia do episódio. Quero pensar no que sustenta essa engrenagem por dentro, na psique de quem aposta e na moral de quem anuncia.


O mecanismo compulsivo e a repetição que não aprende

Dostoiévski perdia. Sempre. Não por azar, ou não só por isso, mas porque precisava perder. Freud reparou nisso com uma clareza quase cruel no ensaio que escreveu sobre ele em 1927, "Dostoiévski e o Parricídio", e a formulação que propõe ali é tão simples que chega a doer. O vício da masturbação, diz Freud, é substituído pela inclinação ao jogo, e a palavra usada no quarto de crianças para nomear a brincadeira das mãos sobre o próprio corpo é a mesma que nomeia a atividade do apostador, jogar. A tentação irresistível, a resolução solene de nunca mais fazer aquilo, o prazer que estupefaz seguido da má consciência de estar se arruinando, tudo isso permanece intacto quando o objeto muda. Só que há um detalhe nesse ensaio que quase ninguém repete quando o cita, e que é o mais útil para nós hoje. Dostoiévski não jogava para ganhar, jogava para perder, porque a perda pagava uma dívida com um supereu insaciável, e porque, como Freud resume numa frase que devia estar tatuada na testa de todo diretor de marketing de casa de apostas, toda punição, em última análise, é uma forma de castração.


Pausa aqui para uma pergunta que pode parecer boba. Por que, então, uma indústria bilionária insiste em vender a fantasia de que o jogo é sobre ganhar? Porque ela sabe, ou finge não saber, o que dá exatamente no mesmo, que o ganho é a isca e a perda é o produto. Nenhuma bet constrói um aplicativo que trava sozinho quando o apostador começa a se dar bem.


O que muda de Dostoiévski, escrevendo cartas desesperadas pedindo dinheiro emprestado enquanto perdia tudo nos cassinos de Baden-Baden, para o apostador brasileiro de hoje, não é a estrutura pulsional, é o cenário e o elenco. Se no século XIX a compulsão precisava de uma mesa de roleta e de uma viagem de trem até um balneário europeu, hoje ela cabe no bolso, vibra, pisca notificação e tem comentaristas queridos anunciando a próxima rodada em tempo real. E é aí que mora a mutação mais perversa do fenômeno. O papel que antes cabia ao crupiê discreto, um profissional que apenas habilita o jogo sem precisar fingir intimidade com quem aposta, hoje é ocupado por gente que o público ama de verdade, streamers, ex-jogadores de futebol, humoristas, apresentadores que construíram carreira inteira em cima da sensação de proximidade. Não é mais um cassino anônimo convidando você a perder, é o amigo que você escolheu seguir, o cara que narra os jogos do seu time desde que você era criança, quem faz companhia enquanto você aposta a favor da sua seleção como quem reza junto.


Essa troca de elenco não é estética, é estrutural, porque desloca a função de autorização do ato. Se antes o sujeito precisava vencer alguma resistência interna, um pudor, uma vergonha, para atravessar a porta de um cassino físico, hoje o convite chega travestido de afeto, dentro do próprio espaço onde ele já confia, no meio da narração do gol pelo qual estava torcendo. A repetição freudiana, que já era difícil de interromper sozinha, agora ganha reforço social em tempo integral, com rosto, voz e a simpatia calculada de quem sabe exatamente qual gatilho apertar.


As bets contemporâneas exploram esse mecanismo com uma precisão que a roleta do século XIX jamais teve. O app não fecha. A odd sobe em tempo real. O "quase ganhei" (o near miss², tão estudado pela psicologia do design de jogos) é fabricado deliberadamente para manter o corpo em estado de expectativa. Não é o dinheiro que sustenta o vício, é a estrutura de repetição que a plataforma industrializou e otimizou com a mesma engenharia usada para prender atenção em qualquer rede social. Nesse sentido, ludopatia³ e dependência química compartilham o mesmo solo, o de uma satisfação pulsional que se desliga cada vez mais do objeto e se fixa no próprio ato de repetir.


E a pergunta que quero deixar aqui, antes de fechar essa cena para seguir adiante, é incômoda o bastante para merecer ser feita sem rodeio. Quando o comentarista que você ama incentiva a odd turbinada no intervalo da hidratação, ele está brincando de crupiê, ou já virou um?


Vale demorar mais um pouco nessa frase de Freud, porque ela rende mais do que parece à primeira vista. Ele escreve a partir de uma culpa muito específica, edípica, amarrada à biografia de um homem que talvez tenha desejado, em algum lugar de si, a morte do próprio pai. Mas o que interessa transportar dali para a discussão das bets não é a culpa pessoal de Dostoiévski, é a leitura estrutural que Lacan faz décadas depois desse mesmo Freud. Se toda punição é uma forma de castração, como escreve Freud, é porque a castração não é um evento biográfico reservado a alguns sujeitos mais azarados ou mais culpados, é a condição de qualquer um que entra na linguagem. Lacan chama isso de furo, a marca de que nenhum significante consegue dizer tudo sobre o sujeito, de que sempre falta algo para que a completude aconteça de fato. E é exatamente por isso que a compulsão ao jogo não é feita só de punição, ela é, ao mesmo tempo, sua face invertida, a tentativa de encontrar, numa única jogada, a completude que a própria castração garante que jamais vai chegar. O jogador se pune, mas também aposta, literalmente, na reversão desse destino. É esse duplo movimento, pagar a dívida e sonhar com a quitação total num mesmo gesto, que explica por que a bet nunca é só sobre dinheiro, e é esse duplo movimento que a seção seguinte tentará desdobrar.


O sonho de enriquecimento e o furo que ele promete tapar

Mas há algo além da compulsão, que é a fantasia. A bet vende, antes de qualquer coisa, uma narrativa de virada de vida. Não é dinheiro que ela oferece, é a possibilidade de que o sujeito deixe de ser quem é. Essa promessa toca em algo estrutural.


Lacan, no Seminário 17, o avesso da psicanálise, formula o discurso capitalista como aquele que se recusa a reconhecer a castração como constitutiva do sujeito. Nascemos na linguagem e a linguagem tem furos, não diz tudo, não faz um sujeito coincidir consigo mesmo. Essa falta é estrutural, é o que Lacan chama de furo. O discurso capitalista, munido de seus gadgets⁴, promete exatamente o contrário, que esse furo pode ser tamponado, que basta o objeto certo (o carro, a marca, a odd que vai virar) para que a falta se feche e a completude apareça. É uma promessa de felicidade que se sustenta por não parar nunca, porque cada objeto consumido reabre a busca por outro, numa insistência sem fim que Colette Soler, lendo Lacan, descreveu como um discurso que desfaz o laço social em vez de sustentá-lo.


A bet radicaliza essa lógica porque promete tapar o furo com uma única jogada. Não é o consumo gradual de gadgets, é uma fantasia de salto, de sair do lugar simbólico que a vida cotidiana reserva ao sujeito através de um golpe de sorte. Aí entra a questão narcísica que você levanta. Ganhar na bet não é só ficar rico, é ser escolhido, é provar que o real, por uma vez, cede à vontade do sujeito e não o contrário. É uma tentativa de driblar a castração fundamental pela via do acaso, o que talvez seja ainda mais sedutor do que driblá-la pela via do consumo, porque aqui entra a ilusão de um destino, de uma marca pessoal no universo, e não apenas de uma posse.


Por que isso é um problema de saúde pública?

Os números não deixam dúvida sobre a escala. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental, estimou em cerca de 39 bilhões de reais o custo social anual das apostas online no Brasil, a maior parte recaindo diretamente sobre o sistema de saúde. Levantamento da Anbima apontou algo em torno de 4 milhões de brasileiros já em comportamento de risco, quase metade endividada, mais da metade seguindo apostar justamente para tentar recuperar o que perdeu, um dado que ilustra com precisão clínica a lógica da repetição que não aprende com a perda. Estudo do IBEVAR mediu que o impacto das bets no endividamento familiar já supera em mais de três vezes o efeito dos juros do cartão de crédito. E a distribuição social não é neutra, mais de 80% dos apostadores de quota fixa pertencem às classes C, D e E, uma sobrerrepresentação da população mais pobre num negócio estruturado para lucrar exatamente com quem tem menos colchão para absorver a perda.


Isso não é infortúnio individual disperso. É um fenômeno com desenho, alcance e lucro concentrados, o que por definição é o que caracteriza uma questão de saúde pública, e não uma soma de fraquezas de caráter.


O anunciante bonzinho e a recusa perversa

E chegamos ao ponto que mais me interessa discutir com você, que é a posição confortável de quem anuncia. "Eu apenas divulgo, a pessoa aposta porque quer" é uma frase que parece neutra, mas não é. Ela pressupõe um sujeito de escolha livre e informada, exatamente o sujeito que o próprio dispositivo publicitário trabalha para não deixar existir. Não se investe bilhões em engajar comentaristas amados pelo público, em fabricar a sensação de intimidade e confiança que só um apresentador querido consegue gerar, para depois alegar que a escolha do espectador foi inteiramente livre dessa influência. A CazéTV soube construir isso melhor do que ninguém, e é exatamente essa proximidade que a tornou tão eficiente como vitrine de apostas.


Aqui vale trazer a estrutura clínica da perversão como Freud a descreveu, a da recusa (Verleugnung), o "eu sei, mas mesmo assim". O anunciante sabe que o produto causa dano, os próprios números de endividamento e adoecimento estão publicados, mas segue operando como se soubesse, ao mesmo tempo, que aquele dano não lhe diz respeito. Não é ignorância. É uma divisão subjetiva sustentada ativamente, uma forma de saber que não se deixa afetar pelo que sabe, porque sustentar esse não saber é o que garante a continuidade do lucro. É perverso não no sentido moral corriqueiro da palavra, mas no sentido estrutural, o de uma posição frente à falta do Outro (aqui, a vulnerabilidade real do espectador) que se recusa a reconhecer essa falta como algo que exige responsabilidade.


A assimetria que a regulação escancara

E é nesse ponto que a comparação com as drogas se torna incontornável. O Brasil levou nove anos, entre avanços e recuos no STF, para simplesmente descriminalizar (não legalizar, descriminalizar) o porte de até 40 gramas de maconha para uso pessoal. A decisão, de 2024, ainda hoje enfrenta resistência de parte do sistema de segurança pública e segue sem regulamentação legislativa complementar. Não existe, e não vai existir tão cedo, publicidade de maconha em horário nobre com um comentarista querido dizendo que basta usar com responsabilidade.


As bets seguiram o caminho inverso, mas vale reconstituir esse caminho com precisão, porque a história não tem um único autor e não foi um presente gratuito de ninguém. A liberação original é de 2018, ainda no governo Temer, por medida provisória convertida na Lei 13.756, que autorizou a modalidade de apostas de quota fixa e deu um prazo de quatro anos para que o setor fosse regulamentado. O prazo estourou em dezembro de 2022 sem que Bolsonaro publicasse o decreto que já tinha pronto na gaveta. Durante todo esse intervalo, as bets operaram numa zona cinzenta completa, a maioria sediada fora do país, sem fiscalização nenhuma e sem pagar um centavo de imposto aqui dentro. Foi só em 2023, já no governo Lula, que veio a Lei 14.790, que efetivamente regulamentou o setor, criou a Secretaria de Prêmios e Apostas dentro do Ministério da Fazenda e estabeleceu tributação de 12% sobre a receita bruta das operadoras, regras que só passaram a valer de fato a partir de janeiro de 2025.


Ou seja, o Estado não abriu mão de nada de graça, e também não conquistou nada de graça. A regulamentação, a cobrança de outorga, a tributação sobre a receita das casas, tudo isso foi arrancado a duras penas de um setor que resistiu, e ainda resiste, a cada etapa. A CPI das Bets, encerrada em junho de 2025, teve seu relatório final rejeitado numa sessão esvaziada, a primeira rejeição desse tipo em dez anos de CPIs no Senado, sob articulação atribuída ao senador Ciro Nogueira, amigo pessoal de um dos empresários investigados pela própria comissão. Tentativas recentes de elevar a alíquota de 12% para 18% ou 24% morreram por falta de votos, e um dispositivo que aumentava a tributação das bets dentro do PL Antifacção acabou retirado do texto depois de articulação atribuída à própria Presidência da Câmara. Existe hoje uma bancada informal, chamada nos bastidores de bancada das bets, reunindo parlamentares de partidos variados que se mobilizam de forma consistente contra qualquer aumento de carga tributária sobre o setor.


E quando, em abril de 2026, a bancada do PT protocolou um projeto para proibir as bets por completo (motivado por declarações do próprio Lula de que fecharia as empresas se dependesse só dele), a reação foi imediata e veio armada com o argumento arrecadatório, o de que o Estado já embolsou algo perto de 10 bilhões de reais em tributos das bets só em 2025 e que proibir empurraria tudo para a clandestinidade. É esse quadro, de uma tolerância que custou anos de disputa para virar cobrança e que hoje enfrenta uma bancada organizada para nunca mais crescer, que sustenta com muito mais precisão o paradoxo que quero destacar.


Uma substância cujo uso pessoal ainda hoje carrega estigma e insegurança jurídica convive com um produto que causa endividamento comprovado, ruptura familiar e um custo estimado em bilhões para o sistema de saúde, mas que é anunciado com naturalidade por quem seu país mais ama assistir no domingo.


Isso não é acidente de percurso regulatório, é sintoma de qual tipo de dano o capital está disposto a tolerar quando ele mesmo lucra com a tolerância.


E, para finalizar, provavelmente o mais honesto seja dizer que não existe anunciante bonzinho porque não existe anúncio neutro. Todo anúncio de bet trabalha, estruturalmente, para produzir no espectador a fantasia de que desta vez o furo pode ser tapado. E quem lucra com essa fantasia, sabendo o que ela custa a quem a compra, não pode se colocar fora da equação alegando livre escolha alheia. A responsabilidade aqui não é jurídica apenas, é uma responsabilidade frente ao Outro que o discurso capitalista sistematicamente dissolve, porque seu motor é justamente não reconhecer limite algum à extração de gozo (e de lucro) do sujeito que consome.


Com isso, fica a pergunta: "O que estamos dispostos a admitir como dano aceitável, e para quem?"


Notas

¹ Odds são as cotações numéricas que uma casa de apostas atribui a um resultado possível, e que definem o quanto se ganha proporcionalmente ao valor apostado. Quanto mais improvável o resultado, maior a odd, e maior o prêmio prometido, o que empurra o apostador para escolhas cada vez mais arriscadas em busca de um retorno maior.


² Near miss é o termo usado no design de jogos de azar para descrever um resultado que chega perto de ser vitorioso sem ser, como três símbolos quase alinhados num caça-níqueis. Pesquisas de neurociência mostram que o cérebro processa o quase-ganho de forma parecida com a de um ganho real, o que reforça a vontade de jogar de novo mesmo depois de uma perda.


³ Ludopatia é o nome clínico para o transtorno do jogo patológico, o padrão persistente e recorrente de comportamento de apostas que causa prejuízo significativo à vida pessoal, familiar ou profissional do sujeito, reconhecido em manuais diagnósticos como transtorno de controle de impulsos.


Gadgets, no vocabulário que Lacan usa para descrever o discurso capitalista, são os pequenos objetos de consumo que prometem preencher a falta estrutural do sujeito, sem nunca cumprir essa promessa por completo, o que obriga o consumo a se renovar indefinidamente.


Referências:

FREUD, Sigmund. Dostoiévski e o parricídio (1928). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970).

SOLER, Colette. O discurso capitalista. Conferência de 2000, publicada pela Revista de Psicanálise Stylus.

DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço.

Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e Frente Parlamentar da Saúde Mental, estudo sobre custos sociais das apostas online, dezembro de 2025.

ANBIMA, pesquisa sobre comportamento de risco em apostas online, maio de 2025.

IBEVAR, estudo sobre impacto das apostas no endividamento familiar, dezembro de 2025.

 
 
 

1 comentário


Vivian
Vivian
03 de jul.

Fabi adorei o texto sobre as bets. Não só ele como todos os outros textos. Trazem conhecimento, provocações e questões importantes. Não estou conseguindo colocar o comentário bem abaixo de cada texto. Somente por aqui. Por mais textos!!!

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