POR QUE PRECISAMOS DESSA COPA DO MUNDO?

Futebol, desejo e a última cena onde o Brasil ainda pode se imaginar junto
Fabiana Louro
Toda Copa do Mundo começa antes do primeiro jogo.
Começa quando alguém diz que "não vai ligar", mas já sabe o horário da estreia. Quando a camisa sai do armário com um certo constrangimento, como se vestir o Brasil tivesse se tornado um gesto mais complicado do que já foi. Começa quando sentimos falta de algo que antes parecia natural. As ruas pintadas, as bandeirinhas entre os postes, as calçadas coloridas, os vizinhos reunidos em torno de um balde de tinta verde e amarela.
Houve um tempo em que a Copa começava no chão. No asfalto pintado. Nas mãos sujas de tinta. Na criança que atravessava o desenho recém feito, e o adulto que gritava, via o trabalho desfeito, mas recomeçava e a incluía, porque tínhamos um propósito e crianças são apenas crianças. No vizinho que reclamava, mas ficava olhando. Na rua que se transformava, por algumas semanas, em arquibancada improvisada. O cachorro que saía com as patas verdes e amarelas não era um problema, e sim parte do rito.
Era rito.
Pintar a rua era uma maneira simples de dizer que aqui também haveria Copa. Que neste pedaço comum do país também iríamos participar da cena. O futebol saía da televisão e entrava na calçada, na conversa de portão, no comércio da esquina, no barulho das crianças, e se tornava memória do bairro.
Quando isso desaparece, não desaparece apenas o entusiasmo esportivo. Desaparece uma forma popular de inscrição simbólica. Uma maneira simples, porém poderosa, de dizer "nós". E esse "nós" se tornou uma palavra difícil no Brasil.
Por isso precisamos da Copa. Não porque ela resolva o país, mas porque ela ainda pode oferecer uma cena comum onde o país consiga se imaginar junto. Não se trata de ingenuidade. Nenhum gol cura desigualdade, violência, fome, corrupção, crise institucional ou ressentimento social. Nenhum título mundial reorganiza uma nação. (Se reorganizasse, a Argentina teria resolvido tudo em 2022 e estaríamos todos admirando a gestão.) Mas a vida coletiva não se sustenta apenas por soluções objetivas. Ela também precisa de ritos, símbolos, narrativas e lugares onde o afeto possa circular sem se transformar imediatamente em guerra.
A Copa não salva o Brasil. Mas pode devolver ao Brasil, ainda que por algumas semanas, uma forma possível de sonhar.
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O futebol como cena simbólica do "nós"
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, mostrou que as massas não se organizam apenas por ideias racionais. Elas se formam também por identificações, paixões, imagens e objetos comuns de amor. Uma multidão não se une somente porque concorda intelectualmente; ela se une porque investe afetivamente em algo, seja um líder, uma causa, uma bandeira, uma promessa ou um time. O que Freud chama de "libido", nesse contexto, não se reduz ao sentido erótico. Trata-se da energia psíquica que o sujeito investe em objetos do mundo, reais ou imaginários, e que, quando compartilhada, produz o laço coletivo (FREUD, 2011).
A Copa do Mundo é uma dessas grandes máquinas de identificação coletiva. Durante algumas semanas, um país inteiro pode sofrer pelo mesmo chute, discutir a mesma substituição, amaldiçoar o mesmo árbitro e transformar desconhecidos em companheiros de angústia. Em uma sociedade profundamente fragmentada, isso não é pouca coisa. A Copa produz uma comunhão precária, contraditória, por vezes ingênua, mas ainda assim rara. Por alguns instantes, o sujeito não sofre sozinho. Ele sofre em coro. E comemora junto.
E o Brasil precisa de sofrimentos que não o separem ainda mais, e de alegrias que possa compartilhar sem exclusão.
Lacan nos ensinou que o sujeito não se constitui isoladamente. Ele se forma no campo do Outro, na linguagem, nos símbolos, nos lugares de reconhecimento, nas imagens que lhe devolvem alguma ideia de quem ele é. No registro imaginário, o campo das identificações e das imagens do eu, o sujeito encontra formas de se reconhecer e de reconhecer o semelhante. Isso vale também para as coletividades. Uma nação não existe apenas por território, constituição e documentos. Ela existe porque seus habitantes compartilham narrativas, fantasias, rituais e signos que tornam possível dizer, com alguma consistência, "nós" (LACAN, 1998).
Benedict Anderson chamou as nações de "comunidades imaginadas", expressão preciosa porque não significa que a nação seja falsa, mas que ela precisa ser imaginada para existir. Nenhum brasileiro conhece todos os brasileiros. Mesmo assim, algo nos permite dizer "nós". Esse "nós" é sempre uma construção simbólica, que pode ser generosa, violenta ou manipulada, mas nunca é natural. Anderson também observou que as nações se sustentam por "cerimônias simultâneas", rituais coletivos em que milhões de pessoas, ao mesmo tempo e sem se conhecer, participam de uma mesma experiência. A Copa do Mundo é, talvez, a maior cerimônia simultânea ainda disponível ao Brasil (ANDERSON, 2008).
O futebol, no Brasil, foi durante muito tempo uma das linguagens mais poderosas desse "nós". Roberto DaMatta mapeou essa função com precisão. No futebol, a nação encontra uma cena onde pode jogar com suas hierarquias e inverter, por noventa minutos, algumas de suas desigualdades mais rígidas. O drible, nessa leitura, não é só recurso técnico. É uma inteligência específica diante da regra, uma forma de subverter a ordem pelo gesto. O campo de jogo é, nos termos de DaMatta, um dos poucos espaços onde o Brasil consegue encenar sua contradição fundamental, entre a ordem formal e o improviso criativo, entre a regra e o drible (DAMATTA, 1982).
A seleção brasileira não foi apenas um time. Foi uma narrativa condensada de país. Na camisa amarela, o Brasil pôde se imaginar belo, criativo, potente, improvisador, alegre, genial. Mesmo quando essa imagem encobria contradições brutais, ela oferecia ao país uma espécie de espelho. E, como todo espelho, não devolvia a verdade inteira. Devolvia uma forma suportável de olhar para si.
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É aqui que a psicanálise ajuda a compreender o tamanho da ferida aberta pelo 7 a 1.
Aquela derrota não foi apenas uma derrota esportiva. Foi uma cena de desfiguração. O Brasil não perdeu somente um jogo em casa. Viu ruir, diante do mundo, uma imagem narcísica de si mesmo. O país que ainda se acreditava excepcional no futebol foi colocado diante de uma impotência pública, repetida sete vezes, em poucos minutos, sem tempo sequer para elaborar a queda. Não houve intervalo. Não houve suspense. Só havia o placar subindo, e a câmera que insistia em mostrar rostos.
Lacan, ao trabalhar o estádio do espelho, mostra como a imagem tem uma função estruturante no registro imaginário. O sujeito se reconhece em uma forma que lhe vem de fora, uma imagem que organiza, dá consistência e oferece uma ilusão de unidade. Quando essa imagem se quebra, algo do eu também vacila. O 7 a 1 funcionou, em escala nacional, como uma quebra desse espelho. Não foi apenas a perda de uma partida, mas o estilhaçamento de uma forma imaginária na qual o Brasil ainda gostava de se reconhecer (LACAN, 1998).
Perder permite luto. Ser humilhado produz vergonha. E a vergonha, quando não encontra elaboração, costuma procurar culpados, de preferência com urgência e sem muito critério.
Mas é preciso rigor. O 7 a 1 não inventou a fratura brasileira. O campo já estava minado. A escolha do Brasil para sediar a Copa havia provocado entusiasmo, mas também críticas e desconfianças legítimas. Parte da sociedade questionava os gastos, perguntava se o dinheiro não deveria ir para saúde, educação, transporte e moradia. A indignação de 2013 também não nasceu do futebol. Ela atravessou o transporte urbano, a precariedade das cidades e a descrença nas instituições.
O 7 a 1 não foi origem. Foi condensação, e virou metáfora.
Ele deu imagem a algo que já circulava. O país da alegria derrotado sem poesia, o país do futebol reduzido à impotência, o país da festa obrigado a assistir ao próprio vexame. Aquele jogo ofereceu uma cena perfeita para uma velha ferida brasileira, o que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-lata", esse modo nacional de se sentir inferior antes mesmo de disputar, de aguardar o fracasso como se ele fosse mais honesto do que o sucesso.
Essa ambivalência merece análise própria. Mas ela ajuda a compreender por que a Copa se tornou um campo tão sensível. O debate sobre sediar o Mundial não era simples. Havia críticas legítimas aos gastos e às contradições de um país que construía estádios enquanto ainda falhava em necessidades básicas. Ao mesmo tempo, é reducionista tratar todo investimento em megaevento como desperdício absoluto. Os resultados variam muito dependendo de como são planejados e para quem se destinam. A Copa não foi apenas festa, tampouco apenas ruína. Foi uma disputa concreta e simbólica sobre que país o Brasil queria ser, e sobre quem teria o direito de narrar esse país.
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Com o tempo, a camisa da seleção deixou de circular do mesmo modo. O amarelo, antes associado à Copa, à festa, à infância e ao grito coletivo, foi progressivamente capturado por outra gramática. A camisa passou a carregar suspeitas, filiações, ressentimentos. A bandeira nacional deixou de ser símbolo cívico ou esportivo e foi convertida, por certos grupos, em senha de pertencimento ideológico. Quando um símbolo amado perde sua função de festa, ele não permanece vazio. Outra lógica o ocupa. O que era carnaval esportivo foi se tornando uniforme moral. O que era jogo foi se tornando guerra.
É nesse ponto que a pergunta "por que precisamos dessa Copa?" ganha força.
Precisamos dessa Copa porque precisamos disputar novamente o destino dos nossos símbolos. Não para fingir que o país está unido, pois ele não está. Não para apagar conflitos políticos, que existem e devem existir em uma democracia. Não para produzir uma reconciliação artificial, dessas que pedem silêncio aos feridos em nome de uma paz decorativa. Mas para lembrar que nem todo laço coletivo precisa ser organizado pela lógica do inimigo.
A Copa oferece uma experiência rara. Permite rivalidade sem exigir extermínio. Permite paixão sem pedir doutrina. No futebol, o adversário pode ser odiado por noventa minutos e, ainda assim, continuar sendo parte do jogo. Essa diferença é decisiva.
A vida pública brasileira, nos últimos anos, perdeu essa borda simbólica. O adversário deixou de ser alguém com quem se disputa um projeto de país e passou a ser vivido como encarnação do mal. A divergência virou suspeita moral. A bandeira virou arma. E quando o debate público passa a carregar sozinho toda a carga de paixão, pertencimento, ódio e demanda de salvação, ele se torna perigoso demais.
A Copa desloca um pouco essa carga. Ela devolve ao país uma cena onde o excesso pode circular de outro modo, onde se pode gritar, chorar, xingar o árbitro, sofrer, celebrar, sem que tudo precise virar imediatamente filiação ideológica. Wisnik observou que o futebol brasileiro opera como "veneno e remédio" ao mesmo tempo. Pode anestesiar conflitos, mas também pode oferecê-los em forma simbolizável, com regra, árbitro e prazo de validade para o sofrimento (WISNIK, 2008). Não há pureza no campo. Nunca houve. Mas há diferença entre uma paixão que sabe estar em cena e uma paixão que acredita estar salvando a civilização.
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Não convém romantizar o futebol
O futebol também pode funcionar como anestesia. Pode oferecer festa onde há precariedade, catarse onde falta justiça, espetáculo onde falta escuta. A mesma camisa que reúne também pode excluir. O mesmo estádio que canta também pode silenciar. O futebol brasileiro nunca esteve fora das contradições do Brasil; ao contrário, sempre as carregou no corpo. Racismo, elitização, violência, machismo, interesses econômicos e manipulação política também entram em campo, e frequentemente chegam antes do aquecimento.
Dizer que precisamos da Copa não significa dizer que ela nos purifica. Não significa pedir ingenuidade, esquecimento ou suspensão crítica. Significa reconhecer que uma sociedade não vive somente de diagnósticos. Também precisa de ritos, de cenas onde seus afetos possam aparecer, circular e encontrar algum destino.
O ser humano não vive apenas de fatos. Vive de narrativas, imagens, significantes, fantasias e rituais. O perigo não está em ter fantasias; todos temos, os países também. O perigo começa quando uma fantasia se torna rígida demais, persecutória demais, incapaz de admitir a falta. Uma sociedade sem boas ficções compartilhadas fica mais vulnerável às más ficções, às conspirações, aos messianismos, às paranoias coletivas, às promessas de purificação.
Em O Seminário, livro 11, Lacan trabalha a relação entre o sujeito e o que chama de real, aquilo que não se deixa domesticar completamente pela imagem ou pela palavra. A cultura não elimina esse excesso, mas inventa bordas para que ele não irrompa de maneira devastadora. A Copa, como rito coletivo, pode funcionar como uma dessas bordas. Não apaga a violência da realidade, mas oferece uma cena onde parte do excesso encontra forma, palavra, grito, espera e memória (LACAN, 2008).
Sublimar não é negar o conflito. É dar a ele outro destino. Nesse sentido, a Copa não é fuga da realidade. Pode ser uma das formas pelas quais uma sociedade tenta suportá-la.
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Uma trégua imaginária
Precisamos dessa Copa porque o Brasil precisa lembrar que ainda é possível desejar alguma coisa junto. Não concordar em tudo. Não apagar diferenças. Não vestir a mesma camisa como se isso resolvesse a história. Mas desejar alguma coisa que não seja apenas a derrota do outro.
Depois do 7 a 1, o Brasil perdeu uma parte de sua inocência simbólica. Descobriu que o lugar onde se sentia invencível também podia expô-lo ao ridículo. Descobriu que a camisa podia ser sequestrada. Que o amor ao país podia ser convertido em ressentimento contra parte do próprio país. Descobriu, tarde demais, que símbolos abandonados não ficam vazios. Alguém sempre os ocupa.
Por isso precisamos dessa Copa. Não porque qualquer jogador seja capaz de redimir o Brasil, pois a história já demonstrou, com certa crueldade, que essa expectativa é grande demais para onze pessoas em calção. Não porque uma taça vá reconciliar a nação. Mas porque precisamos recuperar algum espaço onde o Brasil possa aparecer para si mesmo sem estar imediatamente tomado pela vergonha, pelo ódio ou pela suspeita.
Precisamos de uma Copa para lembrar que uma camisa não precisa ser farda. Que uma bandeira não precisa ser ameaça. Que o grito coletivo não precisa ser linchamento. Que a alegria pública não é ingenuidade. Que pertencer a um país não deveria significar odiar metade dele.
A ausência das ruas pintadas dói justamente por isso. Não porque a tinta no asfalto fosse prova de um país melhor. O Brasil das ruas pintadas também era desigual, violento, racista, injusto, contraditório. Mas havia ali uma disponibilidade simbólica que parece ter rareado, a disposição de ocupar a rua com uma fantasia comum que não fosse imediatamente uma ameaça.
A rua pintada dizia que íamos brincar juntos por algumas semanas.
E brincar juntos, em um país que tantas vezes nos machuca, é grandioso.
A Copa é uma trégua imaginária, não porque suspenda a realidade, mas porque nos lembra que o laço social também precisa de intervalo, de encenação, de alguma alegria possível.
No fim, a pergunta mais dura não é por que precisamos dessa Copa. É outra. O que acontece com um país quando ele perde os lugares onde ainda podia amar a si mesmo sem vergonha?
A resposta, nós começamos a conhecer em 2014. Mas ainda é possível responder de outro jeito.
Ainda existe, em alguma esquina sem bandeirinhas, uma criança esperando que alguém abra uma lata de tinta e diga que este ano a rua também vai jogar. Talvez seja esse o movimento mais político que o Brasil possa fazer agora, não um gesto de reconciliação forçada, mas uma aposta simples, a de que ainda vale a pena pintar.
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REFERÊNCIAS
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
DAMATTA, Roberto. Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.



Fabi, admiro a sua escrita e as perspectivas que ela oferece. Muito bom! Mais pessoas precisam te ler…💡
Gostaria, por gentileza, um texto articulando Copa e as bets! Obrigada rs!
Fabi conseguiu comentar aqui, mas não no final do texto da Copa
Test